Eu entrei pela porta aberta pela Vany e ouvi um barulho estranho vindo do quarto. Um barulho de luta. Corri diretamente para lá, temendo o que eu ia encontrar. Eu não fazia ideia do que estaria lá e a ideia do zumbi na reportagem tinha realmente entrado na minha cabeça. Imaginei as cenas mais horríveis ao entrar no quarto. O que eu vi não ficou muito atrás. A vó da Vany se encontrava deitada no chão, respirando débilmente, a Vany chorando, descontrolada, terrivelmente assustada, caída ao seu lado. Mas obviamente minha visão se voltou diretamente para o atacante. Um homem. Pálido. Meu vizinho. Já o havia visto algumas vezes no elevador. Ele estava usando uma camisa social branca, rasgada no ombro, uma marca de mordida humana à mostra. Sua boca estava suja de sangue e sem alguns dentes. Em seu pescoço, uma agulha de tricô, de aço (que eu reconheci como sendo de Dona Valquíria, avó da Vany) estava fincada. Você já deve ter visto imagens ilustrando zumbis. Você já deve ter visto filmes com zumbis. Você já deve ter jogado jogos com zumbis. Todos nós também. Mas nada se comparou a ver um zumbi na nossa frente. Seus movimentos eram irreais, seu rosto com uma expressão animal. Havia algo que o diferenciava de uma pessoa normal, ou de uma foto. A gente sentia que ele não estava vivo. Não sei como, mas a gente sentia. Olhar naqueles olhos era como olhar nos olhos de um animal empalhado. Vazios. Causava uma sensação de desespero, um mal-estar terrível. Eu acho que nunca vou esquecer daquilo. Foi a primeira vez que eu vi um zumbi ao vivo e a cores. Pedro estava o prendendo contra a parede, o antebraço pressionando seu pescoço. Eu soltei um grito ao ver a cena. Pedro lutava contra o zumbi pelo controle da situação e eu tinha que fazer algo para ajudá-lo, mas... O quê? Eu percebi Ivan parado ao meu lado. Olhei para ele, esperando uma ideia, mas ele ficava olhando para frente como se são estivesse vendo nada.
Eu gritei, esperando uma resposta de quem quer que fosse:
-O que eu faço, porra?!
Pedro gritou em resposta:
-Pega a cadeira!
Eu olhei. Em frente à escrivaninha que ficava ao lado da cama de casal, havia uma cadeira, com um kit de tricõ em cima. Um kit que faltava uma agulha. Eu quase sorri. Quase. Peguei a cadeira e virei erguendo-a alto. Pedro largou o zumbi, saindo da frente e eu acertei a cabeça dele com um dos pés da cadeira. Os outros acertaram a parede e quebraram. O filho da mãe não parou. Ele tentou avançar em mim, mas eu coloquei o assento da cadeira na frente e derrubei ele. Me abaixei e peguei um dos pés da cadeira e pulei em cima do zumbi, cego de raiva e adrenalina. Lembrando com calma, foi pura sorte eu não ter levado uma mordida enquanto lutava para me sentar em cima do tronco do zumbi e prender seus dois braços. Acho que conseguie, em parte, pela sequela (qualquer que tenha sido) que a cadeirada deixou nele. Subi em cima dele e golpeei seu rosto com ferocidade. Estava cego. Meu braço ia e voltava, golpeando furiosamente. Eu chorava de raiva, as mãos tremiam enquanto eu quebrava os dentes, depois o nariz, depois o maxilar, o crânio e cada parte dura daquele rosto maldito. Eu continuei golpeando, sangue espirrando em minha camiseta e em meu braço. Eu ouvia o estalar dos ossos e só. Eu via o espirrar do sangue e mais nada. Eu nunca tinha ficado com tanta vontade de destruir algo na minha vida. Foi Pedro que, de repente, segurou meu braço. Eu levantei e, tremendo, vi o que eu havia feito. Uma piscina de sangue em volta de um resto de cabeça. Eu joguei a perna de cadeira fora. Olhei para minhas mãos. Corri para o banheiro. Naquele momento eu me esqueci completamente da avó da Vany morrendo, dos zumbis, dos militares. Eu cheguei no banheiro e tranquei a porta. Achei que fosse vomitar, estava tremendo. Eu gritei. O mais alta e longamente que meu fôlego permitia. Me lavei com nojo. Me olhei no espelho por vários minutos. Expliquei para mim mesmo que eu não tinha matado ninguém, que aquilo já estava morto, que eu tinha salvado meus amigos. Depois de pouco tempo, eu fui me acalmando e a ideia foi entrando melhor em minha cabeça. Eu tinha feito a coisa certa. Era hora de sair novamente.
sábado, 12 de dezembro de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Isso tá ficando cada vez melhor. E eu queria matar o zumbi(se bem que tem mais né).
ResponderExcluireuheheueheueuhe
muito bom viu?
MLK,to achando show de bola,e os palavrões,kkkkkkkkkk
ResponderExcluircntinue
nada como a primeira vez...
ResponderExcluircara agora q vc escreveu fikei pensando...
ResponderExcluirqual é a sensação d matar alguem(humana ou zumbi lol)
Imagine o Hugo num ringue de vale-tudo...
ResponderExcluir