Eu não sei porque, mas a ideia surgiu de repente na minha cabeça. Era tão simples e ridícula. Eu acho que eu vi as pessoas olhando pelas janelas e sabia que estaria seguro enquanto elas pudessem me ver. Se matassem um civil na frente delas, ficaria muito mal na foto pra eles, ninguém mais iria cooperar. Como eu sou ator, isso ajudou pra caramba. Eu simplesmente caí no chão. Não foi fácil, deixar o asfalto bater no rosto de propósito, mas era isso ou a morte certa. Senti o sangue que escorria rápido do meu rosto. Logo os militares se afastaram, não queriam entrar em contato com o sangue. Eu ouvi umas expressões de surpresa dos civis ao redor:
"Oh! Coitadinho!"
Uma frase que eu já tinha lido em algum lugar passou pela minha cabeça naquele momento e eu quase sorri. "A força pode ganhar a luta, mas é o estilo que ganha a multidão". E era a multidão que eu queria ganhar. Alguns ficaram com medo, mas a maioria das pessoas ficaram penalizadas. Estava funcionando. Nenhum militar se atreveu a ir me ajudar, porque havia muio sangue à minha volta. A cabeça é uma das partes mais irrigadas do corpo, provavelmente eu tinha só um cortezinho, mas mesmo uma incisão pequena pode sangrar bastante. Eu lembro de uma vez no meu colégio que um dos meus colegas levantou-se bem embaixo de um extintor de incêndio e bateu a cabeça. Ele pôs a mão na cabeça e quando a tirou, ela estava quase que inteiramente vermelha. Logo todo seu rosto estava coberto de sangue enquanto a gente corria pra enfermaria. Depois de limpo, nós pudemos ver o corte. Tinha mais ou menos o tamanho de uma unha, em comprimento. A anatomia humana é uma coisa interessante.
Eu comecei a me debater, de propósito. Queria aumentar o drama. Claro que eu não tinha avisado meus amigos do plano e eles provavelmente ficaram apavorados. De repente, um militar em um traje de contenção me segurou pelo pescoço e me levantou, meio que correndo, me segurando o pescoço, para a ruazinha na parte detrás dos prédios. "Droga" eu pensei "Eu me debatendo deve ter feito eles pensarem que eu estava me transformando". Se os civis vissem um zumbi, seria o fim da calmaria e da cooperação. Seria o caos. Me levaram para trás para me executar prontamente. Outro soldado foi seguindo a gente de longe, com uma arma semi-automática preparada. Esse que tava me carregando tinha só um revólver. Chegamos ao fim da rua e viramos a esquina e finalmente estávamos fora da vista dos civis. Eles me jogaram no chão quando, eu não entendi porque, a Vany começou a gritar. Ela não tava gritando de medo, ela só tava gritando. Muito, muito alto. Eu estava caído no chão, virado pro lado de onde a gente veio e não conseguia ver ninguém, mas ouvi um barulho de tapa e aí a Vany ficou quieta. Eu comecei a levantar, dor de cabeça muito alta. O militar estava virado para nós, de costas para o outro lado da rua, a arma levantada. O que estava na roupa de isolamento estava ao lado dele, com a pistola apontada para nós. E extremamente perto, por trás deles, um zumbi se arrastava, definitivamente atraído para o beco pelos gritos da Vany. Eles se assustaram quando eu levantei, achando que eu tinha me transformado, mas eu comecei a falar
-Ai, que dor...
Foi aí que eles perceberam que eu tava normal. Mesmo assim eles tinham que nos matar. Eu comecei a falar, tentando ganhar tempo.
-Que merda, desculpa, caras, eu tenho pressão baixa e as coisas só pioram quando eu fico nervoso... É meio psicológico- Eu percebi que o cara na roupa de contenção não era o mesmo que tinha passado o scanner na gente. O outro soldado era pouco mais velho que nós. Devia ter 18 anos. Parecia muito nervoso. Achei que quem sabe eles fossem comprar minha história- Então, cadê as ambulâncias?
Ivan logo se juntou:
-É, cadê as ambulâncias? Cadê o tratamento? A gente vai morrer?
Vany começou a chorar:
-Por que vocês me bateram? Eu estou confusa. Vocês prometeram que a gente ia ficar bem.
O cara da contenção disse:
-Botem as mãos na parede. Eu não quero ninguém olhando pra trás, aconteça o que acontecer!
Foi aí, quando a gente ia se virar de costas, que aconteceu. O zumbi tinha chegado perto o suficiente e escolheu seu alvo: O soldado novo, inexperiente, que definitivamente devia parecer mais apetitoso do que aquela forma humanóide e amarela. O zumbi mordeu o pescoço do soldado, arrancando um pedaço e ele começou a sangrar muito. O outro virou e deu um tiro no zumbi, que continuou vindo pra cima dele. Então ele mirou na cabeça e um monte de sangue jorrou na parede. Aquele zumbi parecia um mendigo, barbudo, com roupas rotas. Ele caiu no chão e o outro soldado começou a agonizar. O soldado mais experiente apontou para a cabeça do soldado mais novo e disse:
-Nada pessoal, amigo. Ordens são ordens.
O outro soldado parecia muito nervoso. Suava, chorava, sangrava. Murmurava o tempo todo coisas ininteligíveis. Então ele fez uma burrice. Algo que eu nunca esperava que um soldado fizesse. Soldados, para mim, eram seres sem sentimento, que eram treinados para cumprir ordens. Provavelmente era preconceito da minha parte. Esse soldado lutou pela vida até o último momento. Ele disse:
-Eu não quero morrer... Eu não quero morrer...
O mais velho disse:
-Calma. Logo logo vai acabar.
O mais novo meteu a mão na arma dele e a levantou com uma mão, gritando:
-Eu não quero morrer!
Encheu o outro surpreso soldado de tiros e depois jogou a arma longe, xingando. Vany começou a chorar enquanto o soldado começou a reclamar:
-Eu nunca quis essa vida... Maldito serviço obrigatório...
Ele estendeu a mão, desesperado:
-Me ajudem...
Eu virei o rosto e comecei a correr para o fim da rua. Não queria pensar nele. Não queria pensar na família dele. Não queria deixar ele para morrer, mas nós tínhamos que fazer isso. Pedro logo puxou a Vany, que foi a mais sensibilizada pelo soldado agonizante. Ivan veio atrás. Logo os outros oficiais estariam ali, seja pelos gritos, seja pela ausência dos dois soldados. Não interessava. Nós corremos pela ruazinha, desabaladamente, corremos o mais rápido que pudíamos para estarmos o mais longe possível dali. Nossa maior preocupação era com os militares, não nos preocupamos em checar por zumbis, mas também não precisava. Por sorte, não encontramos nenhum. Paramos no meio da rua, não haviam carros circulando. Ofegando, as mãos no joelho, nós ficamos quietos por vários minutos. Eu lembrei de que estávamos contaminados. Merda. Esperava que fosse a versão não ativa do vírus. Não podíamos ter sobrevivido tudo isso só pra morrer de repente. Todos nós começamos a sentir o peso de termos deixado o soldado para morrer. Eu senti as lágrimas queimando os meus olhos. Aquele era um ser humano, porra! Ele tinha tanto direito de sobreviver quanto nós. Ele tinha família, sentimentos, gostos, medos, sonhos, desejos. E nós deixamos ele para trás como se fosse carga inútil. "Não," eu pensei "Nós somos seres humanos também. Somos seres naturais. E na natureza, é sobrevivência. Pura sobrevivência. Não existe maldade ou bondade na natureza. Isso são conceitos artificiais e humanos. Nós estamos de volta aos primórdios. Aqui não são as regras humanas que mandam. Nós vamos ter que lutar para sobreviver". Eu me acalmei um pouco, mas percebi que os outros ainda se culpavam um pouco. Pedro, no entanto, estava impassível. Ele viu a gente chorando e então disse:
-Não fomos nós que matamos ele, a gente só não ajudou ele. Mas não tinha o que fazer, acordem! Mesmo que a gente pudesse parar o sangramento, ele estava com o vírus agora, com certeza! Em pouco tempo, iria morrer e nos atacar. Quem matou ele foram os malditos zumbis. A culpa disso tudo é deles, não nossa.
A gente foi se acalmando. Claro que a gente não estava 100%, mas aquilo ajudou pra caramba. Enquanto a gente terminava de recuperar o fôlego, a Vany perguntou:
-E agora? O que a gente faz?
Eu não sabia o que fazer. Não tinha nenhum adulto para nos ajudar. Não tinha ninguém para noz dizer que tudo ia passar e nos proteger. Não tinha ninguém pra responder nossas dúvidas. Não tinha ninguém. Ninguém além de nós, quatro adolescentes comuns: O nerd, o bonitão, a rebelde e o artista. Comuns. E sozinhos. Não sabia o que fazer, não sabia sequer por onde começar. Não sabia como iríamos sobreviver. Não sabia nada. Não tínhamos armas, comida, ou lugar pra ficar. Não tínhamos o mapa da cidade e nem sabíamos pra onde ir. Não tínhamos certeza de que tipo de vírus etava dentro do nosso organismo e nem se a gente podia confiar em alguém. Nós estávamos à nossa própria mercê e sem noção do que fazer. Foi aí que eu me perguntei "E agora?"
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
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você consegue ler as mentes das pessoas... xD
ResponderExcluirEu simplesmente adorei este capítulo.
ResponderExcluirnota 6
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